Show de Bola

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    Terça-feira, Julho 11, 2006


    A batalha final

    Estádio Olímpico de Berlim, início da noite de domingo, milhares de torcedores prontos para acompanhar a grande final do maior evento esportivo do planeta. E mesmo antes que os portões fossem abertos, a maior estrela da festa já estava lá, em seu palanque à beira do gramado, pronta para receber os convidados. Uma dama de 34 anos, que havia assistido um jogo de futebol pela última vez quatro anos antes, do outro lado do planeta, em uma noite onde pela primeira vez ela ouviu falar de um tal Jardim Irene e se roeu de ciúmes de uma certa Regina.

    A Alemanha trazia boas lembranças a ela. Foi na Alemanha, em um estádio com o mesmo nome mas em outra cidade, onde ela havia sido batizada, por ninguém menos do que um Kaiser. Este mesmo senhor que passou os últimos anos trabalhando para que nada de errado ocorresse nesta grande festa do verão de 2006. Mas aqueles eram tempos complicados, a Alemanha passava por um período duro de sua história. Um país dividido em dois, um povo separado por um muro. E apenas dois anos antes os Jogos Olímpicos, a grande celebração esportiva da união entre os povos, havia sido manchada com sangue, a poucos metros daquele estádio de Munique. Mas houve uma segunda visita às terras germânicas, no início dos anos 90. Lotthar Matthäus era o nome do elegante capitão que a conduziu de volta à Alemanha. Um país finalmente unido que ela pôde conhecer. Mais do que isso, seu carisma ajudou aos alemães a se sentirem como um só povo.

    Neste domingo, 9 de julho de 2006, vinte e dois homens entrariam em campo para tê-la em seus países pelos próximos quatro anos. Itália e França, dois países onde ela já havia estado antes. Na França, chegou pelas mãos do sério e batalhador Didier Deschamps, não muito tempo atrás. Sua visita à Itália era mais remota, era ainda uma criança quando esteve lá. Foi o já quarentão Dino Zoff que a levou a Roma, um distinto senhor que ao contrário de seus demais consortes, trabalhava com as mãos, as mesmas que a levantaram na ensolarada tarde madrilenha em 1982.

    Quem contava-lh muitas histórias sobre a Itália era sua irmã mais velha, que havia passado lá longos anos, anos de guerra e terror. Teve que ser escondida para que não tivesse seu corpo de ouro derretido pelos fascistas. Triste destino que a aguardava anos depois em um país tropical, mas isso é outra história.

    Os 22 guerreiros entraram em campo passando junto a ela, liderados por Fabio Cannavaro e Zinedine Zidane. Os dois candidatos a levantá-la ao final da partida estavam em momentos especiais de suas carreiras: um completava o centésimo jogo com a camisa de sua pátria, o outro fazia ali sua despedida do futebol. E certamente um dos dois seria escolhido como o melhor jogador do torneio.

    Um a um os atletas foram passando, tentando demonstrar indiferença, olhando meio de lado para ela. Ela não se importou. Sabia que era o objeto de cobiça de todos. Impassível, como convém a uma rainha, viu logo aos cinco minutos de jogo a linda cobrança de pênalti de Zinedine Zidane. Ou Zizou, como ela o chamava, pois já haviam se conhecido na romântica Paris em uma noite que ainda hoje magoa os corações brasileiros.

    Os azzurri não se acovardaram, e logo o valente Marco Materazzi se redimiu do pênalti tolo que havia cometido: com uma cabeçada certeira, colocou a bola no fundo das redes de Barthez. Jogo empatado, e destino indefinido para esta grande dama. A batalha prosseguia e ganhava novos heróis: Liliam Thuram, outro conhecido de 1998, que impediu que Materazzi marcasse um gol idêntico ao primeiro; Gianluigi Buffon, um digno sucessor do Vovô Dino, fez defesas sensacionais; Patrick Vieira era o melhor jogador em campo até ter que sair contundido, um mártir daquele domingo; Luca Toni acertou uma cabeçada no travessão e chegou a comemorar um gol que foi corretamente anulado pelo trio de arbitragem argentino.

    Argentina, terra de Daniel Passarela e de Diego Maradona. Também lá ela havia estado por duas vezes, escoltada por estes dois talentosos e temperamentais artistas. E um argentino, Horacio Elizondo, foi o responsavel por mantê-la longe daqueles que não a merecessem. Para conquistá-la, é necessário espírito esportivo e dignidade. E dar uma cabeçada em um jogador adversário passa longe disso. Elizondo teve segurança para retirar Zidane daquela festa, mesmo sendo a última partida de sua vitoriosa carreira. Um final triste para um craque, que perdia ali a chance de levantá-la sobre a cabeça com as duas mãos, gesto imortalizado pelo brasileiro Bellini em 1958. O marselhês deixou o campo passando a seu lado, e não teve coragem de fitá-la, desceu as escadarias envergonhado, olhando para baixo, sabendo que não mais a teria em suas mãos.

    E 120 minutos não foram suficientes para que um dos batalhões se mostrasse definitivamente superior. A sempre cruel decisão por pênaltis seria necessária. Ela se lembrou da Califórnia, doze anos antes, quando Roberto Baggio, 'Il Codino Divino', falhara ali depois de ter brilhado durante todo o mês anterior. Foi quando ela foi ao Brasil pela primeira vez, sem ciúmes de nenhuma Regina, mas pensando em quem seriam os 'traíras' a quem o firme Dunga a dedicava. Dunga, um capitão com apelido de criança e fibra de vencedor, um jogador que jamais se deixou abater mesmo sob pesadas críticas. E assim era também aquele time que vestia azul na bela noite berlinense. O futebol italiano passava pela maior crise de sua história, era maltratado por dirigentes, árbitros, empresários e políticos. Mas nada poderia abalar a concentração daqueles campeões. Pirlo, Materazzi, De Rossi, Del Piero e Grosso, cinco tiros inquestionáveis para o fundo do gol de Barthez. Do lado oposto, David Trezeguet, o mais novo dos campeões de 1998, acertou o travessão, da mesma forma que Zidane havia feito aos cinco minutos de jogo. Mas a bola quicou do lado de cá da linha.

    Após o derradeiro chute do vibrante Fabio Grosso, seu destino estava definido: voltaria finalmente à Itália, onde não pôde permanecer em 1990, quando os então anfitriões haviam caído nas semifinais. E agora em 2006, os italianos derrotaram os donos da casa também nas semifinais. Em 1994, os pênaltis impediram mais uma vez sua ida à Itália - nos pênaltis, em 2006, os italianos reconquistavam aquela dama. E desta vez, ela tem uma tarefa única, a de recuperar a fé dos italianos em seu futebol, fazer com que o calcio volte a ser uma festa de estrelas dentro de campo, não mais um festival de mutretas e acordos de bastidores.

    Apenas em 2010 ela estará novamente ao lado de um campo de futebol, sendo novamente cobiçada por todo o planeta. Desta vez em Johanesburgo, na África do Sul, em um continente ainda desconhecido para ela. Até lá, Roma será sua nova casa, para onde foi levada por Fabio Cannavaro, discreto e eficiente como convém a um zagueiro, que manteve-se intransponível mesmo sem a presença de seu grande companheiro Alessandro Nesta, que, machucado, teve que deixar a disputa ainda no início. Cannavaro se junta a Beckembauer, Passarella, Zoff, Maradona, Matthaus, Dunga, Deschamps e Cafu como um dos poucos homens a ter aquela dama em suas mãos. E também a lendas em preto-e-branco como Fritz Walter, Obdulio Varela e Giuseppe Meazza, heróis de antigamente que não estão mais por aqui, mas deixaram valiosas lições de liderança e valentia para as gerações atuais.

    por Paulo Torres  às  7:04 AM   //   6 comentários


    Sábado, Julho 08, 2006


    Terceiro lugar

    Muita gente acha inútil este jogo que decide a terceira colocação da Copa do Mundo. Dizem ser um jogo de times desinteressados, como a Holanda em 1998; e citam o papelão da Bulgária em 1994, que tentava de todas as formas fazer com que Stoichkov marcasse um gol e se isolasse na artilharia (e acabou levando um 4x0 da Suécia).

    O Brasil já entrou em campo pelo terceiro lugar em três oportunidades, 1938, 1974 e 1978. Em 38, o time que contava com o "Diamante Negro" Leônidas da Silva derrotou a Suécia por 4x2, coroando a primeira grande campanha brasileira em uma Copa do Mundo. Já na primeira Copa realizada na Alemanha, a derrota por 1x0 para a Polônia foi uma boa amostra da pífia campanha do time de Zagallo. O jogo é lembrado hoje por ter sido a única partcipação do "Divino" Ademir da Guia em um Mundial. Em 1978, Brasil e Itália fizeram um jogo de frustração: o Brasil até hoje suspeita da goleada argentina sobre o Peru, que classificou os portenhos à final; e os italianos haviam perdido a vaga na decisão com uma derrota de virada para a Holanda. O jogo, disputado no mesmo Monumental de Nuñez que recebeu a final, teve um dos gols mais bonitos de todos os tempos, o de Nelinho, que empatou a partida. (O Brasil acabou vencendo por 2x1, de virada.) Mas é a declaração do treinador Cláudio Coutinho, proclamando a invicta seleção brasileira como "campeã moral", que é citada nos almanaques quando se fala deste jogo.

    Mas também já aconteceram vários jogos movimentados, especialmente quando estava em campo o time da casa. Em 2002, Coréia do Sul e Turquia fizeram uma partida inesquecível, com um futebol ofensivo de ambas as equipes e com os 22 jogadores deixando o campo abraçados ao fim da partida, aplaudidos pela torcida que compareceu a Daegu. Cena que já havia sido vista em Bari, em 1990, quando a Itália derrotou a Inglaterra por 2x1. Nos tempos das imagens em preto-e-branco, França e Alemanha fizeram uma partida que é descrita como uma das mais belas da história das Copas, com vitória francesa por 6x3. E vale acrescentar que jamais se registrou um cartão vermelho em uma decisão de terceiro lugar.

    Hoje teremos o time da casa em campo, enfrentando um adversário que pode igualar a sua melhor campanha de todos os tempos. Os alemães, que jogarão com Oliver Kahn no gol e sem Michael Ballack, contundido, já prometeram jogar para agradecer ao apoio incondicional do povo alemão durante a Copa. As perspectivas são de uma bela partida em Stuttgart, que desde o início da manhã recebe milhares de alemães e portugueses com bandeiras, caras pintadas e perucas coloridas - são fãs que certamente discordam dos mal-humorados citados no início do texto.

    por Paulo Torres  às  9:35 AM   //   3 comentários


    Sexta-feira, Julho 07, 2006


    Final azul

    Há ainda algo a se dizer sobre a vitória francesa sobre Portugal, dois dias após a partida? Zidane não brilhou como no jogo contra o Brasil. O pênalti para a França foi claro, o pênalti reclamado pelos lusos foi muito mais um duplo twist carpado do Cristiano Ronaldo do que qualquer outra coisa. A França não fez uma marcação tão pesada sobre a saída de bola. Anulou Deco, mas Figo fez um ótimo primeiro tempo e Cristiano Ronaldo finalmente fez uma partida à altura do marketing que tem. Mas no segundo tempo, parece que o time do Scolari não conseguiu se concentrar e nao produziu como no primeiro tempo.

    A França fez por merecer a classificação para a final. Vieira não foi o mesmo das ultimas partidas, mas Makelele fez mais um partidaço, Ribery correu muito, Sagnol fez um belo duelo com Ronaldo. Agora, será um duelo entre duas muralhas defensivas, comandadas por dois colegas de Juventus, Liliam Thuram e Fabio Cannavaro. Duas defesas que levaram quatro gols durante todo o mundial, somadas. Um bom indicativo de uma Copa onde os grandes nomes são zagueiros, volantes e goleiros, e poucos atacantes brilharam.

    por Paulo Torres  às  4:51 PM   //   2 comentários


    Quarta-feira, Julho 05, 2006


    Italia merecidamente na final

    "Brasil 5x2 Franca em 1958. Italia 4x3 Alemanha em 1970. Argentina 2x0 Belgica, com show de Maradona, em 1986. Nao se fazem mais semifinais de Copa do Mundo como antigamente." Isso esta no meu bloquinho de anotacoes, escrito ao final do tempo regulamentar de Alemanha x Italia ontem em Dortmund. Ate aquele momento, parecia um bom inicio de texto pos-jogo.

    Felizmente, ainda se fazem semifinais de Copa do Mundo tao memoraveis quanto aquelas dos tempos romanticos do futebol. E a de ontem foi ao estilo italiano, um jogo estudado, de marcacao pesada, e com as grandes emocoes guardadas para os instantes finais.

    Nao foi um jogo para os atacantes brilharem. Michael Ballack, no segundo tempo, foi tentar armar o jogo la atras do meio de campo para conseguir se livrar do bafo do Gattuso em sua nuca. Klose e Podolski correram muito, mas nao foi suficiente para se livrarem dos zagueiros italianos - e como joga o Cannavaro! Aquele Odonkor, que entrou no segundo tempo, e o Denilson alemao, que a torcida adora, e sempre recebe a bola aberto na ponta, dribla dois, vai ate o fundo e nao faz nada produtivo. Do lado italiano, Totti nao fez mita coisa, Toni so deve ter sido citado pelos narradores estando impedido ou fazendo faltas, Camoranesi apenas fez figuracao. Metersacker, Metzelder e Friedrich, principalmente, levaram a melhor sobre o ataque da azzurra. Ate aqueles minutos finais.

    A dois minutos da decisao por penaltis que parecia inevitavel, um bom passe de Pirlo e um improvavel chute de primeira de Fabio Grosso, dois dos grandes nomes de toda a Copa, e Dortmund se calou. Menos, claro, a torcida italiana, que estava concentrada onde seria a torcida do America no Mineirao, que parecia nem acreditar naquele gol. E menos ainda no gol de Del Piero dois minutos depois. O Del Piero que nao teria espaco no time junto com Totti, e que ficou em campo apenas 20 minutos - ao lado de Totti. No mesmo bloquinho de notas que citei no inicio desse texto, escrevi la, aos 24 minutos da prorrogacao, "Del Piero entrou pra resolver o jogo, pena que tem muito pouco tempo para isso".

    Estando la no Westfallenstadion, a poucos metros do campo, foi impossivel nao me contagiar pela explosao de alegria dos jogadores italianos, que pulavam, corriam ate a torcida, se abracavam, o guerreiro Gattuso deixou o campo chorando. E do outro lado, um silencio assustador nas arquibancadas, jogadores ainda sem entender o que havia acontecido, timidos gritos de "Deutschland" ainda tentou quebrar o clima de velorio mas nao deu muito certo.

    Agora a Azzurra pode conquistar o seu tetracampeonato. Que ja deveria ter ganho na Copa de 1990, quando era o melhor time e colocou todo o pais em festa, mas foi derrotada da mesma forma que a Alemanha ontem: o dono da casa caindo nas semifinais.

    por Paulo Torres  às  1:39 PM   //   19 comentários


    Terça-feira, Julho 04, 2006


    Tensao crescente

    A Copa do Mundo vai chegando ao final, 28 selecoes ja voltaram para casa, e os jornalistas que continuam por aqui agora se concentram em poucos e concorridos jogos. Se na primeira fase havia jogos com lugares vagos na tribuna de imprensa e espaco de sobra nos "Stadium Media Centers", agora eh guerra. O momento do anuncio da distribuicao de ingressos entre os jornalistas que ficaram na lista de espera e o apice do caos, mas todo mundo aqui parece estar mais tenso do que o recomenedavel, todas as mesas estao ocupadas, e para conseguir usar esse computador publico aqui tive que esperar por uns 15 minutos. E qualquer "aguarde um instante por favor" vindo de um dos voluntarios pode gerar reacoes extremas dos tensos reporteres aqui presntes, ja ha um mes longe de casa, viajando todo dia e correndo atras de noticias importantes ou nao. Agora mesmo vi um chines gritando e ameacando a atenciosa voluntaria do Ticket Distribution, um dos delegados da FIFA teve que intervir e dar uma educada bronca no japa.

    Quanto a mim, eh Copa do Mundo, e eu estou aqui, nao vou esquentar a cabeca com pouca coisa. Mas imagino que tambem jogadores, tecnicos, arbitros, os protagonistas da festa, estejam tambem com os nervos em ponto de ebulicao.

    Imagino o Del Piero, que alem de ter que assisitir ao jogo vde logo mais do banco de reservas, recebe todos os dias noticias de que seu clube, a Juventus de Turim, esta prestes a ser rebaixada na Italia devido a um esquema de manipulacao de arbitragens, e ainda viu um de seus amigos, o ex-lateral e atual diretor da Juve Gianluca Pessotto tentar o suicidio saltando do terraco da sede do clube. Ou Cristiano Ronaldo, astro portugues que ainda esta devendo um melhor futebol nessa Copa, vem sofrendo pesadas criticas da imprensa internacional e que na partida contra a Inglaterra se envolveu na confusao que causou a expulsao do ingles Wayne Rooney. Rooney e Ronaldo sao companheiros no Manchester United, mas o temperamental ingles afirmou que vai "partir Ronaldo ao meio", segundo a edicao de ontem do serio e respeitado tabloide londrino The Sun. E em um cabo-de-guerra entre os dois, eh o portugues quem vai ter que procurar outro time para jogar.

    Para viver uma Copa do Mundo, mesmo com toda a festa e alegria, tem que ter a cabeca no lugar e muita, muita tranquilidade. Estando aqui dentro, da pra entender explosoes como a dos argentinos no final do jogo contra a Alemanha.

    por Paulo Torres  às  2:34 PM   //   1 comentários