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Futebol é igual lingüiça
03 de Novembro de 2008

“Futebol é igual lingüiça, quem vê fazendo não compra”. A frase entoada diversas vezes pelo meu bom amigo e sócio Rodrigo Ranieri, um dos fundadores do Show de Bola, ficou marcada para mim. Eu conheci o futebol sendo feito. Conheci as entranhas das negociações escusas, conheci as trocas de favores, conheci a corrupção em troca de camisa, enfim, conheci o que há de pior no mundo da bola.

Hoje, afastado há alguns meses do trabalho de assessoria de imprensa de jogadores, vejo que os métodos e costumes dos homens que fazem o futebol no Brasil são tão ultrapassados e amadores que chego a corar de vergonha.

Eu vi muito, mas posso falar pouco. Não porque tenha algum pudor, mas porque meus escritos aqui poderiam acabar em um processo do qual não teria como me livrar. É difícil provar alguma coisa no mundo da bola, ao menos no Brasil.

Por exemplo: um jogador é vendido por determinado valor, anuncia-se 60% do preço total e o tal “grupo de investidores”, sempre ele, rateia o resto. No meio, há quem diga que o melhor negócio do mundo é investir com essa gente. Eu não correria o risco.

Jogador fazer corpo mole? Já vi, conheço quem fez, e ouvi da boca dele mesmo.

Conheci casos bisonhos como um comentarista que falou bem de um jogador durante a partida para ganhar uma camisa no final. Assim, combinado na maior, antes de iniciada a partida.

Presidente de clube bancado por empresário? Vi também.

Presidente de clube levando grana em negociação ou em renegociação de contrato de jogador? Esse ai eu vi demais. E já tem muito tempo que é feito assim.

Diretor de futebol organizar a patota para comprar um jogador que já tem contrato quase assinado com o exterior para se lambuzar de dólares? Temos um clube bem tradicional, na minha cidade mesmo, fazendo isso há anos.

Treinador ter parcela em jogador? Tem também.

Enfim. O tempo em que passei no futebol me fez perder noventa por cento da magia que eu via em campo. Nunca mais vi um jogo do mesmo jeito. Quando o meu Galo entra em campo e vejo jogador fazendo corpo mole, me dá vontade de quebrar a televisão.

Não sou mais o inocente torcedor de outrora.

Eu vi a lingüiça sendo produzida.

Vi a carne sendo juntada porcamente. Vi a moagem, o embutimento em tripa de porco, vi os gomos de tripa sendo amarrados em barbante sujo e o pior, vi isso sendo vendido, comprado e consumido por milhões de pessoas, que lambiam os beiços e pediam por mais.

Honestamente, eu vi o futebol sendo produzido, e não compro mais. Agora só de graça.

Alexandre Balaguer Abramo, é jornalista, de licença da assessoria esportiva, e, apesar de eterno apaixonado e amante do futebol, se tornou um cético.