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A odisséia da Tuna na Série C
02 de Outubro de 2006

A Tuna Luso Brasileira é um clube de tradição no futebol nacional. Dez vezes campeã paraense, a Tuna é uma das poucas equipes a ostentar os títulos da segunda e da terceira divisões do Campeonato Brasileiro, conquistados em 1985 e 1992, respectivamente. Participou da primeira divisão do Brasileirão em 1979, 1984 e 1986, e revelou jogadores como Giovanni, Arinélson e Vélber.

Mas tradição não entra em campo, e o alviverde do Pará tem passado por um período de poucas vitórias: em 2004 e 2005, sequer conquistou uma vaga para a Série C do Brasileirão. E, ainda pior, em 2005 e 2006 foi eliminada do campeonato estadual ainda na fase preliminar, no mês de janeiro, antes que Remo e Paysandu entrassem na disputa.

Para a Série C de 2006, porém, nenhuma outra equipe do estado se dispôs a bancar a própria participação nessa desgastante e dispendiosa competição. O presidente Moyses Pepe Larrat aceitou o desafio e a Tuna ficou com a segunda vaga do Pará, ao lado do Ananindeua, que como vice-campeão estadual teria as despesas de viagem pagas pela CBF. O elenco tunante foi sendo montado no improviso, mesclando juniores com atletas que haviam disputado o certame estadual por equipes do interior e outros cedidos pelo Remo. A maior parte destes 'rivais' chegou já com a Série C em andamento, um deles o atacante Felipe Mamão, que estreou já na segunda fase e foi o artilheiro da Águia na Terceirona, com 10 gols.

Mesmo com uma folha salarial na faixa de 15 mil reais mensais - menor do que o salário do centroavante Renaldo no Vitória, por exemplo - diretoria e jogadores da Tuna Luso tiveram que se desdobrar para encarar as longas viagens interestaduais da Série C. Se na primeira fase as duas viagens, para Manaus e Rio Branco, foram feitas de avião, a partir da segunda fase a equipe se viu obrigada a viajar de ônibus para São Luís (800 quilômetros, 12 horas de viagem, e derrota por 4x0 para o Maranhão) e Cuiabá (2900 km, 53 horas de ida, 0x0 contra o Operário, 44 horas na volta). Tendo vencido seus três jogos em casa, no acanhado estádio do Souza, a Tuna conseguiu chegar à terceira fase. E a maratona rodoviária continuou com mais 950 quilômetros de Belém a Teresina, percorridos em 15 horas na viagem de ida e 20 horas na volta, retorno este um pouco amargo após a derrota de virada por 2x1 frente ao Ríver; e depois mais 2 mil quilômetros, 40 horas, e uma derrota por 2x0 frente ao Treze em Campina Grande. Após a goleada por 4x0 frente ao Ríver na penúltima rodada, a Tuna assumiu a liderança do Grupo 26 e a diretoria anunciou que viajaria a Salvador de avião para enfrentar o Vitória. Quatro horas de vôo, em vez de trinta horas de estrada. Segundo a imprensa paraense, isso foi possível graças a um repasse de verbas do governo do estado e à venda do meia Flamel, destaque da equipe, para o próprio Vitória - a Tuna não confirmou essa negociação.

No jogo do último sábado, a valente Tuna Luso acabou sucumbindo ao Vitória no Barradão e foi eliminada da Série C. Caso se classificasse para o octogonal final, teria pela frente um calendário dos mais complicados - enfrentaria o Brasil, em Pelotas, e o Ipatinga, no interior mineiro, por exemplo. Nos oitenta dias que duraram a aventura tunante na Série C, a equipe percorreu 13.400 quilômetros de ônibus - segundo o Diário do Pará, distância equivalente a uma viagem de Belém a Oslo, na Noruega. Em meio às viagens, Sidinei Flores, o preparador físico, conduzia o elenco em corridas de três quilômetros à beira da estrada, e o ônibus acompanhava os atletas.

Viagens longas, salários atrasados (pelo menos três meses, segundo a imprensa local), estrutura deficiente, pequena presença de público (a Tuna teve uma média de 1095 pagantes no Souza), saúde financeira do clube dependente de contribuições do poder público e de conselheiros. Nenhum desses problemas é exclusividade da Tuna Luso, é a realidade de muitos clubes Brasil afora. A atual temporada da Série C tem sido pródiga em produzir manchetes sobre o estado mambembe de muitas equipes: a Jataiense viajou de ônibus mais de 20 horas até Belo Horizonte, onde sofreu um impiedoso 9x0 frente ao América-MG; jogadores do Rio Negro, de Manaus, entraram em greve duarante a terceira fase e o clube esteve próximo de abandonar a competição - mesmo sabendo que isso custaria ao clube uma suspensão de dois anos do futebol profissional; o Operário-MT encarou os mesmos 2900 km de estrada para jogar contra a Tuna em Belém.

Este é o verdadeiro futebol brasileiro, esta é a Série C, que coloca no mesmo balaio o Bahia duas vezes campeão nacional e a recém-fundada Ulbra de Ji-Paraná, que tem ao mesmo tempo Vitória e Brasil de Pelotas lotando seus estádios com milhares de fanáticos torcedores e Barueri e Ceilândia jogando para meia dúzia de testemunhas. Uma campanha heróica como a que fez a Tuna Luso não traz qualquer perspectiva de melhora na situação da equipe: no ano que vem, será novamente necessário o apoio financeiro de conselheiros e diretores para que o departamento de futebol do clube seja viabilizado. A possível venda do meia Flamel certamente será importante para o pagamento dos salários atrasados e dívidas acumuladas, mas o artilheiro Felipe Mamão, por exemplo, dará lucro ao Remo, que o emprestou de graça para a Tuna.

Existe saída para clubes como a Tuna Luso? Sim, existe, mas o caminho até ela passa pela estruturação das categorias de base e pela criação de fontes de renda estáveis. Objetivos que nem mesmo os times da Série A têm sido capazes de atingir.

E assim segue o nosso mais popular e mais vitorioso esporte. Vivendo na pindaíba, longe dos holofotes e das maria-chuteiras, e ainda assim levando alegria e esperança àqueles poucos torcedores que vão ao estádio sonhar com dias melhores para o seu time. Felipe Mamão, Flamel, o goleiro Cléber, Preto Barcarena, Hallyson, o técnico Carlos Lucena: são esses os verdadeiros heróis do futebol; e não aqueles popstars que volta e meia reclamam da enorme pressão de jogar para dezenas de milhares de torcedores em gramados impecáveis, ou se dizem desmotivados em defender uma seleção brasileira.

Paulo Torres, atleticano, diz que a Série C é o verdadeiro Campeonato Brasileiro.