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A Batalha Final
11 de Julho de 2006

Estádio Olímpico de Berlim, início da noite de domingo, milhares de torcedores prontos para acompanhar a grande final do maior evento esportivo do planeta. E mesmo antes que os portões fossem abertos, a maior estrela da festa já estava lá, em seu palanque à beira do gramado, pronta para receber os convidados. Uma dama de 32 anos, que havia assistido um jogo de futebol pela última vez quatro anos antes, do outro lado do planeta, em uma noite onde pela primeira vez ela ouviu falar de um tal Jardim Irene e se roeu de ciúmes de uma certa Regina.

A Alemanha trazia boas lembranças a ela. Foi na Alemanha, em um estádio com o mesmo nome mas em outra cidade, onde ela havia sido batizada, por ninguém menos do que um Kaiser. Este mesmo senhor que passou os últimos anos trabalhando para que nada de errado ocorresse nesta grande festa do verão de 2006. Mas aqueles eram tempos complicados, a Alemanha passava por um período duro de sua história. Um país dividido em dois, um povo separado por um muro. E apenas dois anos antes os Jogos Olímpicos, a grande celebração esportiva da união entre os povos, havia sido manchada com sangue, a poucos metros daquele estádio de Munique. Mas houve uma segunda visita às terras germânicas, no início dos anos 90. Lotthar Matthäus era o nome do elegante capitão que a conduziu de volta à Alemanha. Um país finalmente unido que ela pôde conhecer. Mais do que isso, seu carisma ajudou aos alemães a se sentirem como um só povo.

Neste domingo, 9 de julho de 2006, vinte e dois homens entrariam em campo para tê-la em seus países pelos próximos quatro anos. Itália e França, dois países onde ela já havia estado antes. Na França, chegou pelas mãos do sério e batalhador Didier Deschamps, não muito tempo atrás. Sua visita à Itália era mais remota, era ainda uma criança quando esteve lá. Foi o já quarentão Dino Zoff que a levou a Roma, um distinto senhor que ao contrário de seus demais consortes, trabalhava com as mãos, as mesmas que a levantaram na ensolarada tarde madrilenha em 1982.

Quem contava-lh muitas histórias sobre a Itália era sua irmã mais velha, que havia passado lá longos anos, anos de guerra e terror. Teve que ser escondida para que não tivesse seu corpo de ouro derretido pelos fascistas. Triste destino que a aguardava anos depois em um país tropical, mas isso é outra história.

Os 22 guerreiros entraram em campo passando junto a ela, liderados por Fabio Cannavaro e Zinedine Zidane. Os dois candidatos a levantá-la ao final da partida estavam em momentos especiais de suas carreiras: um completava o centésimo jogo com a camisa de sua pátria, o outro fazia ali sua despedida do futebol. E certamente um dos dois seria escolhido como o melhor jogador do torneio.

Um a um os atletas foram passando, tentando demonstrar indiferença, olhando meio de lado para ela. Ela não se importou. Sabia que era o objeto de cobiça de todos. Impassível, como convém a uma rainha, viu logo aos cinco minutos de jogo a linda cobrança de pênalti de Zinedine Zidane. Ou Zizou, como ela o chamava, pois já haviam se conhecido na romântica Paris em uma noite que ainda hoje magoa os corações brasileiros.

Os azzurri não se acovardaram, e logo o valente Marco Materazzi se redimiu do pênalti tolo que havia cometido: com uma cabeçada certeira, colocou a bola no fundo das redes de Barthez. Jogo empatado, e destino indefinido para esta grande dama. A batalha prosseguia e ganhava novos heróis: Liliam Thuram, outro conhecido de 1998, que impediu que Materazzi marcasse um gol idêntico ao primeiro; Gianluigi Buffon, um digno sucessor do Vovô Dino, fez defesas sensacionais; Patrick Vieira era o melhor jogador em campo até ter que sair contundido, um mártir daquele domingo; Luca Toni acertou uma cabeçada no travessão e chegou a comemorar um gol que foi corretamente anulado pelo trio de arbitragem argentino.

Argentina, terra de Daniel Passarela e de Diego Maradona. Também lá ela havia estado por duas vezes, escoltada por estes dois talentosos e temperamentais artistas. E um argentino, Horacio Elizondo, foi o responsavel por mantê-la longe daqueles que não a merecessem. Para conquistá-la, é necessário espírito esportivo e dignidade. E dar uma cabeçada em um jogador adversário passa longe disso. Elizondo teve segurança para retirar Zidane daquela festa, mesmo sendo a última partida de sua vitoriosa carreira. Um final triste para um craque, que perdia ali a chance de levantá-la sobre a cabeça com as duas mãos, gesto imortalizado pelo brasileiro Bellini em 1958. O marselhês deixou o campo passando a seu lado, e não teve coragem de fitá-la, desceu as escadarias envergonhado, olhando para baixo, sabendo que não mais a teria em suas mãos.

E 120 minutos não foram suficientes para que um dos batalhões se mostrasse definitivamente superior. A sempre cruel decisão por pênaltis seria necessária. Ela se lembrou da Califórnia, doze anos antes, quando Roberto Baggio, 'Il Codino Divino', falhara ali depois de ter brilhado durante todo o mês anterior. Foi quando ela foi ao Brasil pela primeira vez, sem ciúmes de nenhuma Regina, mas pensando em quem seriam os 'traíras' a quem o firme Dunga a dedicava. Dunga, um capitão com apelido de criança e fibra de vencedor, um jogador que jamais se deixou abater mesmo sob pesadas críticas. E assim era também aquele time que vestia azul na bela noite berlinense. O futebol italiano passava pela maior crise de sua história, era maltratado por dirigentes, árbitros, empresários e políticos. Mas nada poderia abalar a concentração daqueles campeões. Pirlo, Materazzi, De Rossi, Del Piero e Grosso, cinco tiros inquestionáveis para o fundo do gol de Barthez. Do lado oposto, David Trezeguet, o mais novo dos campeões de 1998, acertou o travessão, da mesma forma que Zidane havia feito aos cinco minutos de jogo. Mas a bola quicou do lado de cá da linha.

Após o derradeiro chute do vibrante Fabio Grosso, seu destino estava definido: voltaria finalmente à Itália, onde não pôde permanecer em 1990, quando os então anfitriões haviam caído nas semifinais. E agora em 2006, os italianos derrotaram os donos da casa também nas semifinais. Em 1994, os pênaltis impediram mais uma vez sua ida à Itália - nos pênaltis, em 2006, os italianos reconquistavam aquela dama. E desta vez, ela tem uma tarefa única, a de recuperar a fé dos italianos em seu futebol, fazer com que o calcio volte a ser uma festa de estrelas dentro de campo, não mais um festival de mutretas e acordos de bastidores.

Apenas em 2010 ela estará novamente ao lado de um campo de futebol, sendo novamente cobiçada por todo o planeta. Desta vez em Johanesburgo, na África do Sul, em um continente ainda desconhecido para ela. Até lá, Roma será sua nova casa, para onde foi levada por Fabio Cannavaro, discreto e eficiente como convém a um zagueiro, que manteve-se intransponível mesmo sem a presença de seu grande companheiro Alessandro Nesta, que, machucado, teve que deixar a disputa ainda no início. Cannavaro se junta a Beckembauer, Passarella, Zoff, Maradona, Matthaus, Dunga, Deschamps e Cafu como um dos poucos homens a ter aquela dama em suas mãos. E também a lendas em preto-e-branco como Fritz Walter, Obdulio Varela e Giuseppe Meazza, heróis de antigamente que não estão mais por aqui, mas deixaram valiosas lições de liderança e valentia para as gerações atuais.

Paulo Torres, enviado especial do Show de Bola à Copa do Mundo 2006