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O Domingo do Alívio
28 de Dezembro de 2004

Nunca antes eu havia ido tão tenso a um jogo de futebol. Futebol é apenas mais um espetáculo, e eu sou um torcedor, embora fanático, que considera o futebol apenas como mais uma diversão. Normalmente, não choro nas derrotas, tampouco solto fogos nas vitórias. Sorrio e comemoro quando meu time ganha, quando perde é apenas como se eu tivesse visto no cinema um filme do qual não gostei. Mas aquele dia era diferente. Um único jogo definiria o futuro do meu time. Uma vitória salvaria o Galo do rebaixamento para a Série B, empate ou derrota fariam o futuro do time dependente dos resultados de Vitória, Criciúma e Botafogo. Havia ali uma séria perspectiva de um futuro negro para o clube de tantas glórias e tantos craques em um passado não tão distante.

O adversário, o São Caetano, um clube sem torcida e sem tradições, mas que já nos acostumamos a ver sempre lutando pelo título do Brasileirão. Abalado pela trágica morte do zagueiro Serginho e pela perda de 24 pontos no STJD, mas ainda assim um time técnica e taticamente bem superior ao do Galo. Para vencer, seria necessário mostrar vibração, vontade, garra, seria preciso jogar junto com a torcida. Tudo aquilo que o Galo não havia feito em todo o campeonato.

Fui sozinho ao Mineirão. Não queria dividir com ninguém meu nervosismo. Mais de 40 mil ingressos haviam sido vendidos até a véspera, então saí de casa mais de duas horas antes do início do jogo, para evitar as obrigatórias confusões na entrada do estádio. Já no caminho, muitos carros com bandeiras alvinegras, torcedores cantando pelas ruas, o clima era de final de campeonato. Fiquei ainda mais preocupado, parecia que ninguém via o péssimo futebol que o time atleticano vinha jogando em 2004. Aqueles rostos que antes do jogo cantavam o hino do Galo com tamanha alegria certamente passariam a vaiar e xingar o time ao terceiro passe errado, pensava eu. Cada vez mais tenso, cheguei ao Mineirão, busquei minha cadeira, liguei meu inseparável radinho de pilha, e me vi rodeado de fanáticos tão tensos quanto eu. Clima pesado, preocupação extrema, na arquibancada os torcedores festivos pareciam ser minoria. Os gritos de guerra habituais soavam mais fortes, todos ali sabiam que apenas por suas próprias pernas o time atleticano teria imensas dificuldades em vencer aquela partida.

Comecei a reparar nos diferentes uniformes que circulavam ali pela arquibancada. Eu estava com uma camisa de goleiro, uma cor vermelho-tijolo, camisa que era usada por São Velloso quando a comprei no início do ano, e que havia passado às mãos do grande Danrlei no decorrer do Brasileirão. Danrlei cuja contratação eu criticara muito, e que parecia entrar em campo a cada jogo querendo provar que eu não sei nada de futebol. Danrlei que evitou goleadas, que garantiu suados empates para o sofrido time alvinegro.

Vi a camisa branca de 1996, com patrocínio da TAM, ano em que chegamos às semifinais, com Taffarel, Doriva e Euller no time. O veloz Euller, velho ídolo, o Filho do Vento, o mesmo Euller que naquele domingo defenderia a equipe adversária e poderia escrever a página mais triste da história do Clube Atlético Mineiro.

Vi um torcedor com a recém-lançada réplica do uniforme dos anos 20, uma camisa preta com finas listras brancas. Foi a época em que o Galo se consagrou como o maior time de Minas Gerais, conquistou a sua grande torcida, inaugurou o estádio Antônio Carlos e teve alguns dos maiores craques de sua história. Na década de 20 se eternizou o "trio maldito" de Said, Jairo e Mário de Castro, três craques eternos que juntos marcaram 459 gols pelo Galo. Toda essa história poderia ser manchada para sempre naquele domingo cinzento.

Um adolescente passou por mim com a camisa de 1999, autografada por todo o time. Ali estavam os autógrafos de Marques e Guilherme, que por duas ou três temporadas formaram a melhor dupla de ataque do país. De Cláudio Caçapa e Lincoln, craques feitos em casa, assim como Renato e Quirino, dois garotos que no dia seguinte se apresentariam à seleção brasileira sub-20 e que em cujos pés (especialmente nos de Renato) estavam as minhas esperanças de permanecer na Série A. Nas costas da camisa, o número 8. Era a camisa do capitão Gallo, que na final do campeonato mineiro de 99 sofreu um corte na testa e terminou o jogo com a cabeça enfaixada e a camisa manchada pelo próprio sangue.

Naquele exato instante, dava uma entrevista à Rádio Itatiaia o volante Hélcio, capitão do time em 2002, 2003 e durante o Campeonato Mineiro de 2004. Jogador de muita determinação, que mesmo em clara decadência técnica e física era um grande líder dentro de campo. Estava nas tribunas do Mineirão, foi apoiar seus antigos companheiros de time, foi ser mais uma voz a empurrar o inseguro time do Galo rumo à vitória. A presença do antigo capitão no Mineirão me tranqüilizou. Lembrei que durante a semana um grupo de ex-jogadores do Galo havia comparecido a um treino da equipe, não sei se por iniciativa própria ou de algum programa de TV. João Leite, Éder, Batista, Getúlio, Luizinho, craques com passagens pela Seleção Brasileira, foram desejar boa sorte aos jogadores. Talvez tenham se entristecido ao ver as camisas que tão bem usaram sendo vestidas por jogadores não mais do que esforçados, como Adriano, André Luiz e Alex Mineiro.

16 horas, e um grande foguetório saúda a entrada dos times em campo. 50 mil vozes cantavam o hino do Galo, como que pedindo aos deuses do futebol para que Guará, Kafunga, Carlyle, Djalma Dias e Zé do Monte encarnassem nos jogadores que entravam em campo. Os onze jogadores têm seus nomes cantados, como de praxe, o técnico Procópio Cardoso também recebe sua ovação, e Euller, hoje adversário, também tem o seu canto entoado, "Eu, eu, eu, Euller, filho do vento!" A massa atleticana mostra mais uma vez ser uma torcida apaixonada que acredita na volta dos tempos de glória. Serginho, o falecido zagueiro do São Caetano, também tem seu nome entoado pela torcida, um belo gesto dos torcedores que lotavam o Gigante da Pampulha.

O jogo começou com mais de dez minutos de atraso, os jogos dos concorrentes na luta contra o rebaixamento já haviam começado. O Galo ataca, principalmente com Renato atuando bem aberto pela direita, mas não consegue fazer a bola chegar limpa aos atacantes. Logo após o primeiro ataque perigoso do São Caetano, o rádio anuncia um gol do Criciúma. Com tal combinação de resultados, o Galo cairia para a segunda divisão. Mas o time luta em campo, o Vitória vai perdendo em casa para a Ponte Preta, a maioria dos jogadores do São Caetano se mostra apática, o Galo cria boas chances de gol com Rubens Cardoso e Zé Antônio e não marca, o bravo Coritiba consegue o empate contra o Criciúma, o goleiro Sílvio Luís defende de forma espetacular uma bela cabeçada de André Luís, o Santos faz 2x0 contra o Vasco e vai conquistando o título nacional, mas ninguém ali naquele estádio se importava com a briga pelo título.

E aos 35 minutos, Quirino arranca pela direita em um contra-ataque, passa por dois zagueiros, chega à linha de fundo e encontra Alex Mineiro livre dentro da pequena área. Alex domina a bola desajeitado, meio que de canela, e demora a finalizar. Foi o suficiente para que Sílvio Luís, que foi mais rápido que o artilheiro atleticano, já estivesse caído sobre a linha do gol, sem chances de defender o chute alto de Alex. O Mineirão explode, Alex e Quirino correm em direção à torcida e se abraçam, e um peso enorme sai dos meus ombros. Naquele instante todas aquelas rodadas na zona de rebaixamento foram exorcizadas, e dali em diante não fiquei mais nervoso do que fico em um jogo comum.

No início do segundo tempo, temi pelo pior quando vi o São Caetano mais calmo em campo, trocando passes com facilidade - mesmo vencendo, mesmo fazendo uma de suas melhores partidas no campeonato, o Atlético tinha sérias dificuldades em acertar três passes consecutivos. Mas a superioridade técnica dos paulistas foi atropelada pela garra de Rodrigo Fabri. Antes dos 15 minutos do segundo tempo, o camisa 10 recebeu um passe ainda em sua intermediária defensiva e começou uma arrancada memorável. Deixou pra trás um dos muitos cabeças-de-área do Azulão, foi por ele agarrado, puxado, calçado, e ainda assim continuou rumo ao ataque, praticamente levando seu marcador nas costas. Já próximo à área, passou para Quirino, na meia-lua, que acionou Alex, que penetrava na área pela direita e acertou um forte chute cruzado. 2x0. O Galo não repetiria o erro de tantos outros jogos, não permitiria que o adversário virasse o jogo. O tempo passou a andar mais rápido, o Criciúma vencia por 2x1, o Botafogo surpreendia o vice-líder Atlético Paranaense em plena Arena da Baixada, mas a vitória garantia a permanência do Galo na Série A. E um gol de Wagner após grande lance de Renato dentro da área selou a vitória. 3x0.

Alívio, alegria, paz. Os torcedores vibravam e sorriam; o sol brilhava pela primeira vez naquele domingo nebuloso. O São Caetano ainda acertou dois chutes no travessão, ambos com o ex-atleticano Lúcio Flávio, mas o destino daquela partida já estava decidido.

Ao fim do jogo, desci as escadas e ia saindo do Mineirão, quando resolvi entrar na arquibancada inferior e aplaudir mais um pouco Danrlei, o último jogador a deixar o campo. Queria sentir mais um pouco da atmosfera daquele jogo único, o jogo do fim do pesadelo. E me sentia como se eu devesse desculpas ao Danrlei, por ter duvidado que ele poderia contribuir para o meu time. Foi o melhor jogador do Galo no campeonato, se tornou ídolo da torcida e, felizmente, queimou minha língua.

Ao final daquele domingo 19 de dezembro, Vitória e Criciúma foram rebaixados (Grêmio e Guarani já estavam matematicamente rebaixados mesmo antes da última rodada), Galo, Botafogo e Flamengo conseguiram se salvar, e o Santos se sagrou campeão brasileiro. Mas para os 50 mil atleticanos que encheram o Mineirão, a única coisa que importava é que poderiam continuar se orgulhando de torcer pelo Clube Atlético Mineiro.

Paulo Torres, atleticano, sonha com um 2005 sem emoções como essa.