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2003: um Carnaval de gols e trapalhadas
13 de Janeiro de 2004
2004 já chegou, mas a temporada do futebol brasileiro ainda não teve seu início. Os grandes clubes acabam de retornar das férias, e o noticiário esportivo das primeiras semanas do ano destaca a inchada Copa São Paulo, a seleção sub-23 de Ricardo Gomes e as emoções finais da "silly season" - boatos, contratações bombásticas e novelas de renovação de contrato. Ainda é tempo, portanto, de relembrar 2003 e distribuir alguns merecidos prêmios para os clubes brasileiros.
Esta coluna aponta abaixo os vencedores do Prêmio Estandarte de Ouro do Futebol Brasileiro 2003:
ENREDO Um campeonato protagonizado por Cruzeiro e Santos, com o final decidido mais cedo do que era esperado. Várias subtramas ajudaram a prender a atenção do público, como a dramática luta contra o rebaixamento, o sonho de uma vaga na Libertadores e a redenção de Palmeiras e Botafogo na Segundona. Espera-se que em 2004 o futebol brasileiro veja um enredo mais elaborado e emocionante.
SAMBA-ENREDO "Esplendor e Glória de um Talento: Alex Brilha na Avenida".
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA Ronaldo e Milene. Poucas vezes um casal foi tão badalado pela imprensa esportiva. Os 23 gols marcados por Ronaldo na temporada 2002/03 da Liga Espanhola, a convocação de Milene para a seleção feminina, a prisão dos procuradores do Fenômeno, o ensaio de Milene para a revista VIP, a quinta indicação de Ronaldo para o prêmio da FIFA de melhor jogador do mundo, a separação pública do casal, o pouco carinhoso apelido de "El Gordo" dado a Ronaldo pela torcida do Real. Talvez não tenha havido um único dia em 2003 sem que houvesse uma nova notícia do casal. E ao fim do ano, os dois estão mais populares do que nunca.
EVOLUÇÃO Este troféu só pode ficar com o Goiás. De lanterna do primeiro turno a sensação do segundo turno, foi um longo caminho. O time goiano tirou o técnico Cuca do Paraná Clube, que fazia uma bela campanha, dispensou jogadores problemáticos, como Alexandre e Caíco, reforçou o time com Grafite, deu força ao artilheiro Dimba. E o time que na 11a. rodada, com apenas seis pontos, já era considerado como rebixado, chegou a ficar 16 partidas invicto e conquistou uma vaga na Copa Sul-Americana.
HARMONIA Sem dúvida nenhuma, o Corinthians foi o clube que mais demonstrou sua harmonia na temporada de 2003. Veja os exemplos:
1. "Geninho continua.", diz a diretoria, após a eliminação da Libertadores, em maio. "Eu continuo.", diz Geninho após perder o clássico para o São Paulo, em junho. "Geninho continua.", diz a diretoria, após um empate de 3x3 contra a Ponte Preta, depois de estar vencendo por 3x1, em junho. "Eu continuo.", diz Geninho após a derrota em casa frente ao Coritiba, em julho. "Geninho continua.", diz a diretoria, após a derrota em casa frente ao Figueirense, em agosto. "Eu saio.", diz Geninho, ainda durante a goleada sofrida frente ao Juventude, em setembro.
2. "Trabalho de longo prazo e vitórias.", promete Júnior ao ser apresentado como novo técnico. "Não avaliei bem o convite", diz Júnior ao pedir demissão, onze dias depois.
3. "Não sei de negociação nenhuma.", diz Leandro pela manhã. "Leandro joga.", diz Geninho à tarde. Leandro vai para a concentração. Leandro é retirado da concentração na tarde anterior ao jogo. O Timão entra em campo enquanto Leandro está voando para a Europa.
4. "Você vai entrar no segundo tempo.", diz Juninho Fonseca a Vampeta. Após a terceira substituição da partida, Vampeta deixa o banco de reservas, deixa o estádio e vai embora para casa. "Não jogo mais no Corinthians", diz o baiano na segunda-feira. Terça-feira, treina normalmente.
COMISSÃO DE FRENTE Alguma dúvida? A comissão de frente que encantou o país se vestia de azul e branco e ensaiava numa terra pouco afeita ao Carnaval. Alex, Aristizábal, Deivid e Mota deram muitas alegrias aos torcedores cruzeirenses: 167 gols em 2003, sendo 102 no Brasileirão. E em apenas seis partidas as redes adversárias não foram balançadas. O time do Cruzeiro foi um verdadeiro rolo compressor em 2003, capaz de goleadas incríveis como o 7x0 sobre o Bahia no último jogo do ano, e de gols espetaculares como o toque de calcanhar de Alex na final da Copa do Brasil - em pleno Maracanã, como convém a um bom gol de placa.
BATERIA A bateria do G.R.E.S. Acadêmicos do Tapetão decepcionou. Comandado por Luís Zveiter, o STJD fez Paysandu e Ponte Preta atravessarem o samba, perdeu o ritmo ao aplicar as suspensões por imagens da TV, e só se salvou do desastre total por ter sido rigoroso ao punir vários clubes com a perda do mando de campo. Afinal, não podemos mais tolerar invasões de campo e agressões a juízes e atletas.
CONJUNTO Clube de Regatas Vasco da Gama. Durante a disputa do Brasileirão o Vasco perdeu quase um time inteiro (Marques, Marcelinho, Russo, Léo Lima, Souza, Siston, Henrique, Cadu) - já havia perdido Petkovic - e trouxe reforços que demoraram muito tempo para entrar em forma, como Edmundo, Beto, Donizete e Valdir. Difícil para os técnicos Antônio Lopes e Mauro Galvão foi repetir a escalação do time. Assim, a desculpa do "faltou entrosamento" foi uma desculpa válida para cada mau resultado vascaíno.
ALEGORIAS E ADEREÇOS O futebol e a imprensa carioca dividem esse prêmio. Enquanto times que haviam feito uma preparação séria para o campeonato nacional tinham reais chances de conquistar o título, ou mesmo de conseguir uma vaga na Libertadores, Fla, Flu e Vasco contratavam reforços durante a competição, apostando nos mesmos nomes de sempre em vez de dar espaço a novos e promissores talentos. A imprensa carioca, além de abrir espaço para que os Euricos jogassem a culpa no regulamento, criou uma disputa paralela pelo título simbólico de "melhor carioca no campeonato". Tudo para disfarçar o papelão que os clubes da Cidade Maravilhosa faziam.
FANTASIAS A fantasia mais popular do ano foi a de "técnico de futebol". Durante o Brasileirão, preparadores físicos, comentaristas, auxiliares e cartolas saíram desfilando fantasiados de treinadores. Alguns até consegiram sucesso, como Dorival Júnior, gerente de futebol do Figueirense, que começa o ano efetivado no cargo de técnico. Outros retornaram à função original, como o treinador de goleiros Roberto Rojas, do São Paulo, e Nelsinho Góes, técnico dos juniores do Vitória. E os técnicos de mentira abundaram: Waldemar Lemos, Marcelo Oliveira, Saulo de Freitas, Júnior (que achou a fantasia muito incômoda), Mauro Galvão, Ral Plasmann, Gílson Gênio, Marcelo Chamusca, entre outros. Houve até o curioso caso de Paulo Baier, do Criciúma, um lateral-direito que quando esteve suspenso por doping andou se fantasiando de auxiliar técnico...
Paulo Torres, atleticano, reza para que São Velloso derrote os infiéis Guilerme, Rivaldo e Alex.
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