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Rituais Sagrados
28 de Setembro de 2003
Cenário: Estádio Raimundo Sampaio (Independência), Horto, zona Leste de Belo Horizonte
Roteiro: Cerca de meia hora antes do início da partida, estaciono o carro. Atravesso a sempre movimentada Av. Silviano Brandão. Subo a ladeira até o portão do estádio em pasos rápidos, quase correndo, com o radinho de pilha já ligado. Pego meu ingresso comprado com dias de antecedência e passo pela roleta, adentrando aquele terreno sagrado. Vou ao bar, compro um refrigerante, reclamo do preço, caminho em direção às arquibancadas. A primeira visão do tapete verde (nem sempre tão verde) já me deixa emocionado.
Desço até o nível mais baixo da arquibancada, sempre pelo mesmo caminho, e dou a volta em meio estádio. Passo bem à frente da Galoucura, caminho tentando encontrar algum conhecido em meio à massa. Chego ao meu lugar habitual, no campo para o qual o Atlético atacará no primeiro tempo, de frente para as cabines de TV. Sempre no terceiro degrau a partir do alambrado, bem perto do campo, de onde posso acompanhar as expressões dos jogadores, comemorar os gols me pendurando na grade, onde me sinto tão importante quanto cada um daqueles onze jogadores vestidos de preto e branco. Acompanho a torcida gritando o nome de cada jogador e cantando o hino do Atlético. No rádio, escuto os comentários, as entrevistas, espero até que o juiz apite e Willy Gonzer narre o início do jogo. Olho acima das arquibancadas, para ver a cabeça branca do Willy na cabine da Rádio Itatiaia, sempre de pé e parecendo estar vibrando mais do que qualquer torcedor.
Cronometro o tempo de jogo, mais uma inexplicável mania de torcedor fanático. Grito com os jogadores, dou instruções táticas, agradeço ao São Velloso por cada defesa. Me incomodo com os outros torcedores que expressam opiniões contrárias à minha. Na verdade, preferiria que eu fosse o único torcedor na arquibancada, para não ter que escutar os injustos xingamentos aos jogadores que eu gosto. Ao final do primeiro tempo, me mudo para o outro lado do campo, para continuar acompanhando o ataque do Galo. No intervalo, colo o radinho ao ouvido para escutar atentamente à análise do jogo, como se eu precisasse de explicações detalhadas sobre o jogo que acontece bem na minha frente. Discordo do comentarista e o xingo de burro. No segundo tempo sempre olho os reservas se aquecendo junto à linha de fundo, apenas para ver uma substituição antes de todo mundo.
A cada gol do Galo, socos no ar, uma corrida curta até a grade, cumprimentos eufóricos de desconhecidos vizinhos de arquibancada. E, claro, um ou outro ocasional banho de alguma cerveja voadora, prontamente revidado com um vingativo "Taca a mãe também!" E a cada gol do adversário, uma expressão de desamparo, uma sensação de perda, a busca por um culpado, seja o zagueiro que subiu para o ataque e não voltou, o lateral que permitiu o cruzamento para a área ou o técnico que escalou mal o time. Se o sistema de som anuncia um gol sofrido por um rival do Atlético, todos comemoram, aparentemente mais felizes do que em um gol do Galo. E ao final do jogo, novamente dou a volta no estádio, saio pelo mesmo portão pelo qual entrei, em meio a uma multidão que ou comemora a vitória do melhor time do mundo ou reclama dos jogadores sem vontade desse timinho que vai acabar sendo rebaixado.
É um ritual mágico, seguido sempre à risca. Pequenas coisas que faço sempre sem ligar para a importância do jogo, o horário, o clima, a escalação do Atlético. E que acredito que cada torcedor também tenha seus rituais e superstições, que é o que torna o futebol tão apaixonante e faz com que milhares de pessoas continuem indo a estádios sujos e mal-cuidados religiosamente a cada semana. Não tem explicação racional, mas quando se adquire esse estranho hábito de torcer para que onze marmanjos consigam colocar uma bola entre três postes, não há mais saída: nunca mais será possível se afastar do futebol.
Paulo Torres, atleticano, se sente mais próximo do Galo no Independência do que no Mineirão.
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